Complexo Esportivo de Deodoro Rio 2016

Espaço Público     |     Em execução

Rio de Janeiro - RJ
2015
1.919.410 m²

Autor

Raul Pereira

Coordenação

Rulian Nociti

Equipe

Claudia Kawakami
Daniela Ramalho
Fernanda Ferreira
Leandro Fontana
Paula Martins
Romulo Oraggio

Arquitetura

Vigliecca & Associados

Maquete eletrônica

Vigliecca & Associados

Consórcio

Vigliecca & Associados / Focus Group

Realização

Prefeitura do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio 2016

Premiação

Concurso público, 1º colocado

PAISAGISMO

A localização do Complexo Esportivo Deodoro, lhe confere uma condição peculiar no tecido urbano: pressionado pela expansão dos bairros residenciais e limitado pelo conjunto das montanhas, a área se caracteriza na paisagem como um vazio urbano, cercada por uma densa ocupação suburbana entre as zonas norte e oeste do Rio de Janeiro.

Com isso, adquire um papel de conexão, não somente no tecido urbano da cidade, como também o de interligação de três fragmentos florestais de grande importância ambiental: Maciço do Gericinó-Medanha, Parque Nacional da Tijuca e Parque Estadual da Pedra Branca, completando, deste modo, o elo necessário para a criação desse novo corredor ecológico e restabelecimento do fluxo gênico.

Nesse contexto, o paisagismo passa a adquirir uma dupla função estruturante, tanto da paisagem naturalizada, como do tecido urbano construído.

Somado a essa condição singular, está o fato de estar localizado entre as duas grandes florestas urbanas do Brasil: o Parque Nacional da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca. Esta, uma das maiores florestas urbanas do mundo e a segunda do Brasil (12.500 ha), perde apenas para a Serra da Cantareira (14.800 ha) da Região Metropolitana de São Paulo. Por sua vez, a Floresta da Tijuca é a terceira maior área verde urbana brasileira, cujo reflorestamento foi iniciado em 1861, pelo Major Archer da Policia Militar, onde foram plantadas 100.000 mudas, predominantemente de espécies nativas do Bioma Mata Atlântica, um fato histórico e pioneiro no Brasil daquela época. Por outro lado, os três conjuntos Medanha/ Tijuca/Pedra Branca, constituem os maiores fragmentos de vegetação nativa da cidade do Rio de Janeiro.

Esta feliz conjunção de fatores induz necessariamente, a um tratamento, que estabeleça uma continuidade dessas paisagens, não só do ponto de vista biofísico, como também histórico, estético e cultural. Deste modo, procurou-se estabelecer as ligações entre os fragmentos verdes, tanto através de corredores e maciços arborizados mais densos, como pelos eixos de arborização das ruas, demarcadas com florações da mesma espécie.

A cidade do Rio de Janeiro é historicamente, caracterizada pelas belas paisagens, onde a força da natureza predomina sobre a arquitetura. Essa determinação estético/ambiental, nos conduz, a uma linguagem não de meios tons, mas de uma força de largas pinceladas, onde tudo é superlativo e exuberante: o mar, as montanhas e as florestas. Nesse sentido, as diretrizes adotadas no projeto, trabalham com amplos eixos e vistas panorâmicas, grandes conjuntos arbóreos, uma rica biodiversidade e generosos espaços livres de recreação, circulação e lazer.

Essa espacialização possibilita também uma maior flexibilidade e reversibilidade entre os modos eventos e os legados, na medida em que contribui para uma adaptação futura de novos equipamentos.

O DOMÍNIO DA PAISAGEM

Como pólo de conexão entre diversas regiões da cidade, o projeto procura abrir as visuais, no sentido de possibilitar uma ampla leitura da paisagem, em qualquer ponto do Complexo Esportivo, tendo, como pano de fundo os pólos norteadores, os conjuntos edificados e as montanhas. As visões seqüenciais dos diferentes equipamentos do Parque privilegiam o ponto de vista do pedestre, ao nível dos olhos e da escala humana.

Com isso, promovemos a visibilidade através da rápida identificação das ações do entorno e a transitividade, permitindo a articulação dos diferentes espaços de modo descontraído e agradável, reproduzindo de maneira semelhante a coreografia do comportamento livre do pedestre nas ruas e praças da cidade. Compatível com o caráter das atividades, ligadas ao movimento, esporte, estímulo e participação, a vegetação trabalha com florações demarcadas com cores quentes, amarelos, laranjas e vermelhos.

POR UMA PAISAGEM SUSTENTÁVEL

Numa perspectiva que se pretende sustentável, procura-se incluir uma abordagem capaz de relacionar e articular áreas vegetadas aos outros elementos e processos de suporte biofísico: o sistema hídrico, a base geológica-geomorfológica, as características climáticas e micro climáticas, como também a fauna. Dessa forma, procura-se empreender uma visão de paisagem como infra-estrutura, contrapondo-se a uma concepção fragmentada, que não corresponde à complexidade e aos desafios e demandas do urbanismo contemporâneo.

No sentido de um cumprimento da função social, compreendida como o direito de todos a uma cidade sustentável, tal como estabelece o Estatuto da Cidade, faz-se necessário valorizar a manutenção dos processos ecológicos e da biodiversidade, consolidando um sistema de lugares que acolham harmonicamente, a história e o patrimônio cultural, atividades de esporte, lazer, cultura, educação e fruição da beleza dos elementos naturais e antrópicos.

O projeto procura também recuperar e garantir a integridade das áreas verdes remanescentes, articuladas a outros elementos e processos dos sistemas naturais (água, solo, ar) e promover uma eco-revelação, no sentido de tornar visíveis os fluxos naturais das águas pluviais.

O CAMINHO DAS ÁGUAS

O projeto parte de uma visão que privilegia as relações entre os vários elementos e processos do suporte biofísico, incorporando soluções de desenho que trabalham a acomodação das águas pluviais, criando assim uma hidrodinâmica, com a presença de bacias de retenção e bio-valetas e pode-se dizer que o pensamento contemporâneo sobre águas urbanas, caminha na direção da desaceleração e infiltração local; assim, em vez de canalizações e ocultamentos, a idéia é promover a gestão da água de forma que seja revelada, celebrada e incorporada no desenho da paisagem urbana.

O Rio Marangá, ao qual se propõe a despoluição, estrutura o eixo ao longo da Avenida Brasil, passando à leste por bacias de retenção, com a dupla função de filtragem e prevenção de enchentes e transformando-se num canal construído quando passa a correr defronte ao Parque Público (pentatlo e hockey), demarcando simbolicamente sua metamorfose mais urbana e deliberadamente antrópica. Nesse momento, ele deixa de ser “natural” e, como numa versão fluvial da piscina das marés de Alvaro Siza, se transforma num espaço lúdico, para uso recreativo, de passeios de barcos leves. Procurou-se minimizar, sempre que possível, áreas de pavimentos impermeáveis e muitas circulações foram tratadas com PTA (Piso de Terra e Areia) ou com placas drenantes, visando a infiltração e a recarga do lençol freático.

ÁREAS VERDES

Procurou-se trabalhar com grande diversidade de espécies, predominantemente nativas da Mata Atlântica local, criando uma espécie de jardim botânico, promovendo a atração da avifauna e atribuindo desta forma, um sentido pedagógico como um espaço de educação ambiental (vide tabela de espécies anteriormente mandada em anexo).

O projeto estabelece um zoneamento, definindo hierarquias e tipologias dos estratos vegetais em função dos tipos de uso e significados simbólicos:

- Bosques densos existentes de vegetação mista, de nativas e exóticas, a serem preservados e enriquecidos com espécies predominantemente da Mata Atlântica local

- Áreas de transição existentes: de usos mais intensivos e antrópicos, com arborização mais esparsa e utilização de gramados ou herbáceas

- Mata ciliar, ao longo dos Rios Marangá e Caldeireiro

- Eixos viários e passeios públicos arborizados

- Gramados

- Áreas inundáveis

Para o estabelecimento do corredor ecológico, conectando os três parques Medanha, Pedra Branca e Tijuca, procurou-se dar continuidade aos conjuntos vegetais, através de maciços arbóreos como as alamedas das vias de circulação. Mesmo considerando que as fileiras contínuas não possuam as dimensões necessárias para o estabelecimento do fluxo gênico, essa conexão cumpre um papel de ordem simbólica. A potencialização dos conjuntos arbóreos contribui para a amenização do microclima do Complexo, situado numa região distante das brisas mais frescas das praias litorâneas.

A fisionomia da vegetação arbórea utilizada toma como referência a Mata Atlântica brasileira, cujo suporte, o conjunto das folhagens, varia do verde escuro ao verde claro e o colorido ocorre de forma esparsa e respingada nesse fundo uniforme.

A idéia é caracterizar o conjunto da arborização como suporte para todos os equipamentos do projeto.

É o Complexo Esportivo Deodoro mergulhado numa grande área verde e não o contrário.

Procurou-se trabalhar as áreas antrópicas com uma linguagem mais geométrica e colorida, em contraposição às formas orgânicas das áreas mais naturalizadas. Esses eixos coloridos cumprem também o papel de sinalizadores e orientadores dos percursos dos usuários, além de criar um ambiente estimulante, compatível com a adrenalina que requerem as atividades esportivas. Outros renques de árvores floríferas, cortando os bosques, aponta, simbolicamente nas direções dos corredores ecológicos Medanha/Tijuca.

Como celebração, foram selecionadas espécies que terão floração intensa durante no período do evento (agosto/setembro). Desta forma, as áreas verdes, procuram permear todos os espaços do Complexo Esportivo, criando um plasma que unifica seus interstícios, formando uma malha articuladora.

Ou, brincando com as palavras, deixando de ser um nó urbano para virar um espaço de todos nós.